Escola Brasileira de Psicanálise e Etologia

Necessidades, Violência e Criminalidade: os protetores e os inimigos da vida

Texto apresentado no Fórum Permanente de Pais e Professores, uma parceria da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro e do Conselho Estadual de Educação com a Escola Brasileira de Psicanálise e Etologia (EBPE). Em 13 de dezembro de 1999.

Ainda hoje consideramos o homem a criatura mais poderosa da terra, posição essa adquirida graças às suas capacidades de aprendizagem, sua expansão demográfica e sua aptidão para formar grupos.

Sabemos também que as formas destrutivas de agir ameaçam a vida de todos os habitantes do nosso planeta e que esse espécime, através de seu comportamento e conduta em relação às outras criaturas e a tudo que constitui o meio circundante, tornou-se sua maior ameaça.

Esse fato nos obriga a refletir sobre nossas relações com os outros e com a natureza para que possamos alterar essa realidade catastrófica. Uma modificação eficaz e radical exige que possamos identificar e corrigir as causas que nos levaram a esses erros de comportamento.

A miséria do homem tem por fundamento a insuficiência, a carência ou a perturbação de sua consciência. Cada um de nós deveria estar consciente que depende dos seus semelhantes, do mundo circundante e que ambos e também nossa vida correspondem aos nossos atos.

A necessidade, não só dos especialistas, mas também de todos que lidam com crianças, de conhecerem as fontes de seus próprios terrores nas premissas de suas existências é absolutamente essencial para a saúde e harmonia social.

O recurso do recalque, na infância, nos permitiu sobreviver à crueldade imposta pelo meio, mas na idade adulta ele nos impede um viver consciente, lúcido e responsável.

Grande parte dos adultos não considera o quanto foi ferida na infância e de que modo essa secundarização impede o respeito e a proteção da vida. Por essa razão ferem suas crianças e banalizam os maus tratamentos transmitidos pela educação ou socialização.

O homem privado da capacidade de experimentar sentimentos e de compreendê-los está consequentemente em perigo.

Uma pessoa ferida que encontrar através dos sentimentos a verdade sobre os traumatismos sofridos será capaz de resgatar a estória de seu sofrimento e abolir seus efeitos.

O medo do outro e do meio circundante ? incluindo seus volúveis valores ? é que nos impede de tomar decisões claras, autênticas, positivas e de agirmos de maneira construtiva. Esse medo inconsciente, fruto dos sofrimentos infantis conjugados aos sentimentos de culpa, é que provoca uma sobrecarga emocional para a consciência.

O medo inconsciente que temos de não ?estarmos à altura?, de sermos maus, desagradáveis, incapazes e sem valor é a raiz das compensações e evoluções negativas. Um ser humano que se sinta verdadeiramente reconhecido na sua natureza primária, ama a vida e não é destrutivo .

Mergulhado em sofrimento, na inquietude e no desespero o indivíduo não dispõe plenamente de suas capacidades para discernir e avaliar as diversas realidades. Os erros de julgamento e as decisões errôneas precipitam ações erradas. Todos esses erros suscitarão sentimentos de culpa que ocasionarão novos erros de julgamento. Esse ciclo engendrado pelo sofrimento psíquico se estabelece como sofrimento da alma e deforma a vida. Esse conjunto estruturado a que chamamos de sistema funciona desde o início da vida e necessita da solicitude desinteressada, da disponibilidade e disposição dos pais e/ou dos seus substitutos. Estar doente da alma é uma perturbação do nosso sistema de defesas.

Um ser com suas possibilidades protetoras perturbadas, um doente da alma, encontrar-se-á em perigo não só como indivíduo, mas também como membro de um grupo ou da sociedade.

A satisfação das necessidades básicas provê a criança de segurança, confiança e alegria de viver, condições fundamentais que a capacitarão para o estabelecimento futuro de relações saudáveis e satisfatórias.

Essas necessidades vão além da alimentação e higiene apropriadas e também da educação formal. Elas incluem muita atenção, cuidados ternos, pessoas protetoras e encorajadoras, amorosas, ajudas esclarecedoras e informações verdadeiras.

Uma criança impossibilitada da satisfação dessas necessidades primárias tornar-se-á, no mínimo, insegura e a mercê de uma angústia catastrófica. Ela ficará sem defesas. Esse estado psicológico é experimentado como sendo de sua própria insuficiência. Ela não pode se dar conta de que foi abandonada ao seu infortúnio repleto de perigos. Nesse contexto tornar-se-á indiferente e insensível ou submeterá seu organismo a golpes, ataques que levam até a morte.

Quando o meio não corresponde satisfatoriamente aos seus apelos, a criança não obtém respaldo, perde a confiança em suas capacidades relacionais e termina doente. Assim chegamos às perturbações no sistema geral, na coletividade. A importância da destruição dependerá da capacidade de absorção e da solidez do sistema geral.

O que caracteriza nosso fim de século é uma perturbação relacional provocada por indivíduos que sofrem de perturbações relacionais.

Partimos do princípio de que o organismo humano, num período pré e pós-natal, necessita ser protegido por um meio saudável física e amorosamente.

Nossas reações são determinadas por sofrermos ou não algum traumatismo em nossa integridade. Nosso comportamento é determinado pela harmonia ou desarmonia do nosso sistema.

As desordens psíquicas manifestam-se e exercem seus efeitos sob formas de reações defeituosas que podem ser dirigidas para o exterior ou para o interior, contra o outro ou contra si próprio. São reações que nos colocam em perigo, fazem mal tanto a nós como indivíduos quanto à sociedade com a qual interagimos.

Uma overdose emocional impõe, à criança e ao adolescente, fraturas na sua harmonia primária, no seu sistema gerando angústia e sofrimento para os quais o jovem organismo é incapaz de reagir ou não pode reagir. Nos raros casos de reação, ela ocorre de maneira imperfeita e o sistema não a pode assimilar.

Por essa razão as sobrecargas emocionais são angústias e sofrimentos que parecem não ter causas, onde o fator responsável não é imediatamente detectado.

Essas sobrecargas alteram o sistema, perturbam suas capacidades de funcionamento e sua integridade primária. Qualquer ameaça à integridade primária tem por origem a negação de suas necessidades

Há que se acrescentar outras fontes de traumatismos responsáveis por pesadas consequências: a deformação da realidade, falsificações da verdadeira estória pessoal (ontogênese) como também sobre o passado da espécie (filogênese); ataques à integridade intelectual como a transmissão de crenças aberrantes; inúmeras experiências vividas e que seriam inscritas na consciência são recalcadas no inconsciente por total incompatibilidade com as representações irreais. Tudo isso desestabiliza profundamente o sistema. Tragicamente, esses comportamentos são transmitidos de geração para geração.

Nesse sistema massacrado, forma-se uma multiplicidade de reações inconscientes, latentes, que originarão as neuroses, psicoses, os distúrbios psicossomáticos e as delinquências.

No início da vida, o ser humano é ?todo corpo?. Ele se descobre e se comunica pelos seus sentidos. Para ele, o bem e o mal são sinônimos de prazer e desprazer. A esse primeiro nível de percepção, chamamos sensação. As experiências vividas no plano da sensação engendram, desde o ventre materno, um segundo nível perceptivo chamado de sentimento.

Ainda como feto, o indivíduo pode ser ferido em sua integridade, ser maltratado e manifestar reações determinadas pelas sensações, incapaz de refletir, compreender ou interpretar o medo e a dor. Submerso no desespero, sua reação latente e cega far-se-á presente em todos os domínios.

Essa pessoa conhecerá dificuldades de adaptação em toda a sua existência. Sua qualidade de vida foi deteriorada. Os dois primeiros níveis de seu sistema relacional (sensação e afetividade) já foram afetados por uma overdose emocional. Encontrar-se-á prisioneira de uma atitude defensiva permanente.

Sem compreender seus porquês, não consegue modificar-se. Porque sua singularidade o faz ser perseguido e porque ninguém o compreende, resta-lhe sentir-se ainda mais impotente.

A forma de reação latente inscrita no seu potencial afetivo que determina o comportamento poderia ser assim descrita: ?Não posso me amar, sou estranho, todos os outros são melhores e mais capazes, sou horrível, desagradável, devo sempre me dar mal, tenho que redobrar o esforço mesmo sem saber o que e quando é necessário fazer para que não mais aconteçam fracassos. Devo mudar, a culpa é minha de não encontrar solução para meus problemas?.

Frente a uma pessoa ferida na sua integridade, constataríamos comprometimentos nas três esferas da atividade relacional, a saber:

  1. ao nível da sensação (físico- corpo)
  2. ao nível do sentimento (afetividade)
  3. ao nível da compreensão (pensamento- intelecto)

Estes traumatismos com ação global repercutem no organismo alterando o comportamento alimentar, as condutas de proteção e fuga, sua capacidade de atenção (concentração), memorização e aprendizagem, como outras funções físicas e mentais.

Alguém ferido na sua integridade e funcionamento originais vai responder inconscientemente com esquemas de comportamento individuais elaborados por uma defesa contra reais ou supostos perigos e ameaças.

Tais compulsões inconscientes são experimentadas com intenso sofrimento e apresentam-se aos outros na forma de comportamentos provocadores que agridem o meio social, a comunidade.

Em 1959 a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou a ?Declaração dos Direitos da Criança?. Há 40 anos que, infelizmente, esses direitos não são reconhecidos, menos ainda respeitados. Quando a família, a escola e a sociedade não assumem a responsabilidade de preservar os direitos da criança, esta crescerá como um ser desprovido, parcial ou totalmente, de ter direitos.

Lembremo-nos que, além de não ter pedido para vir ao mundo, toda criança deve ser protegida e satisfeita nas suas necessidades. Uma dessas necessidades determinantes para seu bem-estar é a de ser levada em consideração. Uma criança respeitada pode manifestar todas as suas outras necessidades com a esperança de que sejam compreendidas e satisfeitas. Poderá formular suas vontades sem o risco de se ver incompreendida, rejeitada ou enganada. Ela, por sua vez saberá respeitar as necessidades dos outros, não cometerá crimes para obter vantagens ou se vingar de uma pretensa injustiça. Estará apta para proteger o direito à vida e o direito à satisfação das necessidades naturais.

Essa criança cujas necessidades foram satisfeitas tornar-se-á um adulto apto a viver em sociedade e capacitado para contribuir com a comunidade.

A criminalidade é a perversão da necessidade de ter consideração e respeito por si e pelo outro. A terrível constatação é a de que, cotidianamente, matamos, assassinamos, torturamos e cometemos outras atrocidades em nome de instâncias ditas superiores e qualificamos as ?vítimas? de ?maus? ou ?mal feitores?, sendo isso o suficiente para justificar o extermínio.

Adultos que quando crianças foram satisfeitos e respeitados ou tratados e conscientizados não querem matar mesmo que ordenados a isso. Terão escrúpulos para matar.

Somente aqueles que carregam, pela vida, um ódio que foi inoculado em suas infâncias, possuem o desejo e o prazer de matar: dessa forma experimentam em ações sua raiva da vida e se vingam dos que ousaram lhes fazer vivê-la.

Fabricamos assassinos e os jogamos na humanidade.

Tragicamente, homens e mulheres que tem em alta estima a racionalidade e a inteligência, pensam e dizem que as sensações e os sentimentos não têm importância. Esquecem que os seres vivos são guiados há milhões de anos por suas sensações e sentimentos.

Tais sentimentos e sensações são os protetores do nosso ser, os guardiães de nossas vidas, nosso bem mais precioso. Precisamos cuidar para que não se tornem letárgicos, sonolentos, míopes, surdos ou sem forças. Ser e ficar consciente implica saber escutar nossas sensações e nossos sentimentos naturais e primários, considerá-los e nos deixarmos guiar por eles.

Toda criança originalmente possui esses protetores pessoais e personalizados. A família, os pais, a escola devem se unir para que esses protetores possam cumprir seus papéis. A criança necessita de amor. Amor é cuidado, é velar ativamente sobre a vida. O amor se realiza através da satisfação das necessidades vitais.

A vida cria necessidades e satisfazê-las é amar e proteger a vida. A criança só tem um pedido: ser amada incondicionalmente. Atender a esse pedido tornará a violência coisa de um passado, com alívio, só lembrado.


Elizabeth Paulon

Psicanalista, diretora geral da Escola Brasileira de Psicanálise e Etologia e regente da Clínica Holística da Escola Brasileira de Psicanálise e Etologia.

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