"...empatizando o tempo todo, resistindo ao fechamento e à rigidez, sugerindo e forçando alargamentos, destruindo heróis monolíticos..." Elizabeth Paulon
Tenho à minha frente dois universos absolutamente distintos e, ao mesmo tempo, tão próximos - tecidos no mesmo urdume das ciências de seu tempo.
Inúmeros são os textos e livros que buscam aproximações teóricas entre essas duas ciências - psicanálise e neurociência. Alguns combativos quanto às semelhanças, outros apontando caminhos de abertura à pesquisas e mostrando-se claramente afeitos à aceitar os resultados que se apresentam e agregar esses conhecimentos a fim de ampliar para além da teoria -ampliar a aplicação técnica. Afinal, a psicanálise foi concebida, primordialmente para aliviar dores e sofrimentos humanos.
Enquanto primordialmente faço da clínica psicanalítica a minha atividade profissional e de estudos, não me proponho a elaborar ou escrever teorias. Muito mais atraente é fazer um passeio pela história do desenvolvimento da psicanálise e, depois através deste olhar, fazer algumas aproximações com a neurociência.
A psicanálise como Freud a concebeu era sublinhada pela neurologia. Buscava uma aproximação com a biologia e sugeria inclusive, ser esse o sentido maior do próprio termo metapsicologia, que seria maior do que somente uma técnica psicoterápica ou mesmo uma teoria psicológica da consciência uma vez que traça o esquema do aparelho psíquico descrevendo sua origem, estrutura e funcionamento dos pontos de vista tópico, dinâmico e econômico.
Pontos centrais desta estrutura conceitual foram os de trauma, instinto e afeto.A definição freudiana mais básica do afeto é ser ele "um estágio final de um fator quantitativo de uma energia que (Freud) chamou de quota de afeto (ou soma de excitação), isto é, o elemento metapsicológico primordial" (Andrade, 2003).
Este ponto de vista freudiano de afeto corresponde à descarga de energia no interior do corpo, acompanhada de prazer ou desprazer associada à percepção da descarga. Os registros mnêmicos sucessivos das percepções de tais descargas formarão as idéias ou representações mais ou menos intensas e ativas. Tais representações ou idéias associadas ao afeto são componentes variáveis e específicos de cada indivíduo, dependendo assim da história de cada um. Cabe aqui observarmos alguma aproximação entre esta postura psicanalítica - advinda de Freud - e a psicologia evolucionária.
Não é a intenção, neste texto, fazer uma leitura freudiana acerca da psicanálise, nem tão pouco traçar a história do desenvolvimento do pensamento psicanalítico ao longo do tempo. Hercúleo trabalho seria e dificilmente fecharíamos o quadro, pois que as ramificações, a partir do pensamento original de Freud, foram inúmeras.
Sendo assim, em "staccato", faremos um ir e vir no tempo até chegarmos ao teórico que forneceu o chão para que a neurociência pudesse estabelecer laços e aproximações com o pensamento psicanalítico, John Bowlby.
Partindo de Freud e observando as mudanças de rumo, as ampliações que a psicanálise - enquanto teoria e prática clínica - sofreu, vamos ver, por exemplo, Ferenczi, contemporâneo e analisando de Freud, que mantinha uma relação íntima com ele, e até uma relação de obediência, e que teve sua liberdade garantida pelo caráter diferente do movimento psicanalítico húngaro que, estaria mais identificado com as mudanças sócio-culturais do que com uma figura pessoal.
Para Ferenczi a técnica não era o limite. O paciente merecia uma expansão da técnica, um "tudo tentar" na direção da cura. Ousada postura para época e, principalmente vinda de um discípulo dileto de Freud. Prenunciava mudanças estruturais na prática clínica, lidando com afetos e considerando a essência do colo, o que se fazia necessário, em algumas circunstâncias. Afeto e ternura podendo dar o amparo fundamental. Era, sem dúvida, uma leitura ousada da relação psicanalítica.
Apesar dos insistentes apelos de Freud para que os psicanalistas da Hungria se mantivessem reservados quanto à política, isto foi impossível. A psicanálise estava por demais atrelada aos movimentos sociais e políticos.
Diríamos, pois, que os húngaros não foram filhos de Freud, mas filhos diletos da psicanálise que, aliás, foi espalhada por eles pelos quatro cantos da terra em seus sucessivos êxodos.
Um ponto curioso era o caráter provinciano da cosmopolita Budapeste que mantinha o espírito dos velhos médicos de família. Os médicos/cientistas estariam nas grandes capitais que eram os grandes centros de Ciência: Paris, Londres, Zurich, Viena. Em Budapeste um médico era primordialmente médico e tinha a responsabilidade de curar, atenuar sofrimento. Daí acreditarmos que aquelas pessoas que foram tocadas por psicanálise, que se mantiveram em atividade clínica, assumiam pesquisas e experimentos com vistas a curar. Daí a justificativa, talvez, pela audácia dos experimentos.
O médico de família embasa sua atividade numa empatia com o universo de sensações de seu paciente. Em seu Diário Clínico, seu último escrito, Ferenczi fala que o analista capta pela empatia, digere e elabora pela capacidade simpática, isto é, pela capacidade de compartilhar os sentimentos de medo, de abandono, etc.
É difícil imaginar que, com toda a pressão do entre guerras, Freud tivesse aceito um convite para emigrar para outro pais que não a Inglaterra. Não foi uma tarefa fácil a de convencê-lo da necessidade de emigrar, apesar das provas evidentes. Em Março de 1938 as tropas alemães ocuparam a Áustria e Hitler entrou em Viena. A obra de Freud já havia sido "enviada para a fogueira" e o estoque de livros na International Pshychoanalytical Press, em Leipzig, confiscado e destruído. A psicanálise estava por demais atrelada aos movimentos libertadores, e isso assustava, ameaçava.
Já tendo passado por uma primeira guerra mundial, e sobrevivido e fortificado o movimento psicanalítico, Freud tinha razões para sentir-se ambivalente em relação a Inglaterra e, especialmente ao movimento psicanalítico de Londres. Já em 1921 ele havia expresso fortes críticas a Jones, enquanto editor do International Journal of Psychoanalysis. Em seguida, julgamentos bastante severos sobre o que Freud acreditava ser o envolvimento de Jones com Joan Riviere (quando ela havia sido paciente de Jones). Finalmente Freud ficou muito perturbado e aborrecido com a receptividade da Sociedade Britânica à Melanie Klein e às suas idéias, enquanto ao mesmo tempo, era ofendido por críticas e ataques pessoais à sua filha, Anna.
Um dos aspectos que a Sociedade Britânica de Psicanálise, então, discutia era o da psicanálise leiga, ou "psicanálise selvagem" - aquela praticada por não médicos.
Como bem explica G. Kohon,
"O futuro que Jones imaginou para a psicanálise, a partir desses embates teórico-práticos, é bastante relevante:
A maioria dos analistas, entretanto, deveria ser, como agora médicos qualificados, de forma que uma continuidade direta existisse entre os pontos de vista psicológico e fisiológico. A psicanálise existiria e seria considerada como um ramo da medicina clínica... seria somente uma questão de tempo: os psiquiatras também fariam uma prática psicanalítica pois seriam treinados em psicanálise; não considero essa expectativa como ilusória; o processo já está começando na realidade. Assim que a psicanálise tiver obtido um espaço seguro nos departamentos mais psicológicos da medicina, o restante acontecerá automaticamente; isso quer dizer, a penetração gradual da doutrina psicanalítica entre os ramos e os estágios da profissão, e a incorporação dos pontos de vista verdadeiramente psicológicos, psicanalíticos, na educação médica de forma geral. O ponto de vista naturalista e biológico, característico das duas disciplinas só poderia resultar no reforço e no suplemento de cada uma, com o intuito de trazer um benefício mútuo. (Jones, 1927)
Comparemos o ponto de vista de Freud com o de Jones. Freud diz para seu interlocutor imaginário:
Permita-me dar à palavra "charlatão" o sentido que ela deve ter, ao invés do sentido legal. De acordo com a lei, um charlatão é alguém que trata pacientes sem possuir um diploma que prove que é um doutor. Eu prefiro uma outra definição: um "charlatão" é alguém que assume um tratamento sem possuir o conhecimento e a capacidade necessária para tal. (Freud, 1926 a)
Um dos pontos mais importantes e corajosos por parte dos psicanalistas ingleses foi a manutenção da alta proporção de analistas leigos na Sociedade Britânica. Isso também foi um dos fatores mais importantes na formação do caráter específico da psicanálise britânica, tanto dentro como fora da Sociedade Britânica de Psicanálise. Vinte anos mais tarde parecia que a questão estava completamente resolvida. Ella Sharpe escreveu, antes de morrer:
Se a psicanálise é uma ciência que se ocupa com todo o campo do desenvolvimento mental e emocional, temos que cada observador psicanaliticamente treinado pode ser de grande valor. Já que todos os problemas humanos são, em última instância, psico-físicos, a ciência precisa de forma imperativa, dos serviços de médicos treinados. Precisa de biólogos, fisiologistas, neurologistas. Da mesma forma, precisa de químicos e físicos. De forma semelhante, historiadores, antropólogos, sociólogos, educadores, observadores de crianças treinados, assim como de delinqüentes, são, todos, indispensáveis para a construção de um corpo indestrutível da verdade, no que diz respeito ao desenvolvimento psicológico. (Sharpe, 1947)".
Esse ponto de vista, com aspectos bastante ampliadores e menos engessado deu origem à uma série de posturas diferentes e, na maioria das vezes, discordantes. Neste período Melanie Klein desenvolvia, em Budapeste e depois em Berlin, uma pesquisa teórica e com observações clínicas sobre a psicanálise infantil. Seu distanciamento de Freud começava a se delinear, tendo chegado a criar uma metapsicologia diferente, um distinto modelo de mente, baseada em hipóteses diferentes das que Freud havia desenvolvido. Por exemplo, os kleinianos mantinham a terminologia de Freud, mas formulavam conceitos completamente diferentes de instinto de morte.
Ao modificar o instinto de morte, eles modificaram todo o resto do constructo teórico, e não somente esse único conceito. Modificações posteriores foram relacionadas a noções tais como a fantasia inconsciente da criança no estágio pré-verbal; a estrutura arcaica e sádica do superego; a crença da existência de relações objetais desde o nascimento; a determinação da época do surgimento do ego; etc. Essas mudanças interrelacionadas formaram um novo corpo das idéias metapsicológicas.
Foi bastante natural que toda Londres ficasse influenciada pelos ensinamentos de Klein. Esse romance durou até aproximadamente 1935, quando Klein apresentou o trabalho "Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníacos-Depressivos", no qual ela introduz o conceito de posição depressiva (Klein, 1935). Alguns de seus seguidores disseram que isso demarcava a constituição de uma "escola Kleiniana" de psicanálise, distinta da Escola Britânica (ou inglesa).
Enquanto isso, Anna Freud e seus companheiros desenvolviam sua própria versão de Freud, tão citada quanto a dos kleinianos. Um dos aspectos desta interpretação quanto às contribuições de Freud foi a ênfase no aspecto genético da libido. Melanie Klein não estava interessada nos diferentes estágios do desenvolvimento psicossexual; ela se ocupava mais em descrever diferentes "posições", presentes durante toda a vida de um indivíduo e que denotava formas específicas de relações objetais, com ansiedades específicas e defesas correspondentes.
Mas, voltando à história, por volta de 1936, a Sociedade Britânica abriu suas portas para cerca de 36 analistas alemães. Essa recepção generosa não estava, certamente, isenta de ambivalência. Muitos deles eram vistos como, meramente, "analistas fora de moda no Continente". A oposição à Klein foi ainda mais reforçada com a chegada da família de Freud e alguns de seus colegas de Viena. A maior parte das pessoas que participavam dos grupos em conflito estava neste momento, debaixo do mesmo teto: a Sociedade Britânica de Psicanálise.
Alguns membros da Sociedade começaram a expressar certo mal estar em relação à forma como algumas coisas estavam se desenvolvendo. Embora a Sociedade estivesse passando claramente por um período de dificuldades, ela já havia se desenvolvido o suficiente para que fosse possível mudar suas regras. Uma nova constituição definia que o máximo de tempo de permanência para os altos cargos seria de três anos e, sob essa nova regra, Sylvia Payne tornou-se a primeira presidente, eleita em 1944.
Entre as grandes discussões internas desta sociedade, uma das propostas era a de clarificar a posição de Klein, referente à metapsicologia de Sigmund Freud.
Os grupos que brigavam pareciam estar participando de um grave conflito matrimonial entre "mama" Melanie Klein e "papa" Sigmund Freud (veja G. Kohon). Esses mal entendidos ameaçavam seriamente a unidade da família psicanalítica, enquanto as crianças testemunhavam essa guerra entre os dois sexos. O fato é que as hostilidades ocorriam entre duas mulheres - Melanie Klein e Anna Freud - e não entre um homem e uma mulher (que fez com que fosse chamado de "controvérsia bissexual").
O que havia começado como uma guerra entre duas mulheres acabava com um "acordo de cavalheiros" assinado por três mulheres: Melanie Klein, Anna Freud e Sylvia Payne (conhecido como "acordo de senhoras"). O compromisso na esfera do treinamento teve a concordância da Sociedade em 1946, com a introdução de dois cursos paralelos - Curso A e Curso B. Ambos os cursos eram de responsabilidade de um Comitê de Treinamento, que também se responsabilizava pela seleção e qualificação dos alunos. Enquanto os que lideravam os seminários no Curso A eram advindos, em sua maioria, da Sociedade, a senhorita Freud e seu grupo davam os seminários e as conferências sobre técnica psicanalítica para os alunos do Curso B. O supervisor para o primeiro treinamento de caso clínico era escolhido em seu próprio grupo, o segundo era eleito no grupo de analistas que não se identificavam nem como Kleinianos nem como Anna Freudianos.
Dessa forma foi criado o "Middle Group" (incluindo Winnicott, Ballint, Bowlby, entre outros) também conhecido como Grupo Independente. A Sociedade permanecia única mas dividida em três grupos separados com dois cursos de treinamento. Esse arranjo foi complementado por um compromisso político, onde os três grupos teriam representantes nos principais comitês da Sociedade. O curso de treinamento sofreu grandes modificações desde 1946, mas o aspecto político do acordo vem se mantendo até os dias de hoje.
Depois de muitas mudanças, uma nova organização de treinamento foi finalmente estabelecida. Em 1973 ficou decidido que cada candidato estaria livre para escolher seu próprio programa de conferências e grupos de estudo a partir do currículo, com a ajuda de um analista senior.
É nesse contexto de discussões teóricas que a Teoria do Apego - BAT Biological Attachment Theory, formulada por John Bowlby se inscreve definitivamente no universo da psicanálise. Na verdade Bowlby começou suas observações ainda nos anos 30, quando primeiro observou a relação entre a perda ou a privação da mãe, a um determinado tipo de desenvolvimento da personalidade. Neste mesmo período Mary Ainsworth com suas pesquisas e observações com povos africanos, em Uganda, formulava sua teoria da segurança, lançando o conceito de Base Segura.
Nos anos 50 Bowlby e Ainsworth unem esforços para a formulação da teoria. Bowlby já com os traços iniciais da teoria (ao observar a relação entre personalidade psicopática e a privação de afeto materno) e Ainsworth já tendo pesquisado e desenvolvido o primeiro estudo empírico sobre os modelos de apego da criança à sua mãe. Este ano, 1950, foi quando a Organização Mundial de Saúde pede a John Bowlby uma pesquisa sobre os efeitos das separações sofridas pelas crianças filhas de pais que a guerra ocupou. Foi uma pesquisa longitudinal que resultou na publicação do livro "Cuidados maternos e saúde mental", onde o ponto central era este: a importância da presença contínua e de qualidade, da figura materna para o bom desenvolvimento emocional, cognitivo, afetivo da criança.
A teoria do apego lida com as seqüelas que as privações causam, deixando clara a relação entre a saúde mental e a qualidade dos cuidados maternos. Ponto de partida para as questões centrais foi compreender a alteração causada pelo rompimento dos laços afetivos. Uma vez percebida a extensão das seqüelas, era necessário compreender qual era a natureza de tais laços, cujo rompimento poderia causar resultados tão drásticos?
Até agora, olhando para as posturas teóricas anteriores, temos um bom número de olhares teóricos que pousam sobre esta questão. Um deles é o do impulso secundário, que é a forma como é compreendida a relação do bebê com sua mãe. Neste caso o impulso primário seria através da alimentação. Outra leitura é a da propensão inata do bebê relacionar-se com o seio, é vista como a sucção do objeto primário. Outro olhar é o da adesão ao objeto primário, tratando do contato físico, independente do alimento. Também temos uma leitura do anseio primário do retorno ao ventre materno. Ressentido pela expulsão do ventre o bebê buscaria voltar à ele.
Bowlby percebeu a relevante interação entre o bebê e seu principal cuidador, na maior parte das vezes, a mãe. Tal interação ocorre num fluxo recíproco. A forma como um bebê se comporta em relação à mãe exerce influência considerável no comportamento da mãe.
Voltando um tanto no tempo, cabe lembrar que a primeira evidência da importância das relações precoces entre pais e bebês partiu dos estudos de Anna Freud sobre os efeitos traumáticos das disfunções familiares durante a segunda guerra mundial. Esse tema foi também observado, anterior e profundamente por René Spitz através de pesquisas comparativas entre grupos de crianças separadas de suas mães. Enquanto um grupo vivia numa fundação para crianças abandonadas e era cuidado por enfermeiras, um outro vivia numa creche que estava vinculada a uma prisão feminina, onde as crianças eram cuidadas diariamente pelas mães. No final do primeiro ano, o desenvolvimento motor e intelectual das crianças da fundação foi comparado ao das crianças da creche e computado como radicalmente mais baixos. As crianças da fundação eram retraídas e mostravam pouca curiosidade.
Harry Harlow levou este estudo para mais longe ainda, desenvolvendo um modelo animal para o desenvolvimento do bebê. Observou que quando macacos recém-nascidos eram isolados por um período de seis meses a um ano e depois eram devolvidos a companhia de outros macacos, mantinham-se fisicamente saudáveis mas apresentavam perturbações devastadoras em seus comportamentos. Ficavam agachados nos cantos das jaulas e embalavam-se para frente e para trás como fazem as crianças autistas ou gravemente perturbadas. Não interagiam com outros macacos, nem lutavam, brincavam ou mostravam qualquer interesse sexual.
O isolamento de um animal em idade mais avançada por um período comparável não causava nenhum efeito tão destrutivo. Foi constatado que, nos macacos como nos humanos, parece haver um período crítico para a socialização.
Harlow deu continuidade a suas pesquisas e colocou na jaula dos pequenos macacos, um arremedo de mãe macaca feita de arame e um outra mãe, feita com material macio. Os macaquinhos, todos, preferiram a mãe-macia. Em seguida colocou na mãe de arame, uma mamadeira com leite, e nada na mãe macia. Todos continuavam preferindo a mãe-macia e só se aproximavam da outra para um pouco de leite e logo retornavam àquela mais agradável.
Bowlby, a partir de dados obtidos pela observação direta, sentiu necessidade de elaborar um método científico, utilizando-se de pesquisas de campo, comparações de dados, observação direta e fazendo uso agregador de outras ciências.
A estrutura conceitual da teoria do apego está vinculada ao corpus principal da biologia moderna, formulada nos moldes da teoria do controle, ao invés da teoria das pulsões. Fala de um sistema de controle central inscrito no SNC, sistema nervoso central, controlando as ativações ou finalizações de um dado comportamento, de acordo com determinados sinais ou condições ambientais. Trabalhava com conceitos darwinianos de evolução biológica, que leva à adaptação biológica, onde a ênfase recai no meio ambiente. Os caminhos que levaram à formulação desta teoria foram baseados na Etologia, Cibernética, Teoria dos Sistemas, Processamento de Informações, Psicologia do Desenvolvimento e na própria Psicanálise. Toda atenção recaída nos mesmos fenômenos para os quais Freud havia chamado atenção, mas não às teorias elaboradas por ele para compreender estes mesmos fenômenos.
Bowlby toma como ponto de partida a experiência patogênica, especialmente o afastamento da figura materna, diferentemente de Freud que tinha como ponto inicial, a patologia, o sintoma. Já tendo apontado um dos pontos de distinção de olhar entre Freud e Bowlby, podemos também citar a noção de trauma. Em Freud, vemos a importância sendo dada ao fato traumático, ao evento, àquilo que aconteceu. Em Bowlby vemos, além desses aspectos, também o que não aconteceu, o que faltou, o que foi perdido, o não vivido.
De forma sintetizada, temos alguns conceitos básicos, que podem nortear a compreensão sobre a ampliação teórica e clínica que esta posição apresenta, temos o de comportamento de apego, que é qualquer comportamento que resulta numa pessoa alcançar e manter proximidade com outro indivíduo claramente identificado. Falamos de um bebê em busca de sua mãe. Comportamento de cuidado, análogo, complementar ao comportamento de apego que compreende que tal comportamento é componente inato da natureza animal. Tanto nos homens como nos outros animais, espera-se que a fêmea ofereça os necessários cuidados iniciais a sua(s) cria(s). Comportamento de exploração, que pode ser compreendido como a antítese do comportamento de apego. É a exploração do meio ambiente, a busca pelo novo. Observamos que quanto mais velha a criança, para mais longe e por mais tempo ela consegue ficar afastada de sua figura materna. Somos levados diretamente a outro conceito chave, o de Base Segura, que, em última instância, refere-se a pais acessíveis e receptivos quando requisitados. Base a partir da qual a criança pode explorar o mundo, com a certeza de ter para onde voltar, emocionalmente falando. Novo, também foi o conceito de homeostase ambiental, que defende a hipótese de que o comportamento de apego seja organizado por meio de um sistema de controle inscrito no sistema nervoso central, que busca condições favoráveis para o bom funcionamento, portanto semelhante ao sistema de controle fisiológico que mantém em equilíbrio satisfatório medidas fisiológicas, tais como temperatura e pressão.
Podemos observar que grande parte do caminho para compreensão do indivíduo está na qualidade da relação inicial, das primeiras experiências com a figura materna. Bowlby chegou a este ponto, depois da observação de que uma das experiências patogênicas de maior freqüência era o afastamento da mãe. As separações ou as perdas, incluindo a ameaça de separação ou ameaça de perda foram os elementos mais desorganizadores do desenvolvimento emocional e cognitivo do indivíduo. Ele concluiu que o modelo de apego que o indivíduo desenvolve nos anos de maturidade é influenciado pela maneira como seus pais o trataram. Isto porque qualquer teoria da mente pressupõe um modelo de interação entre organismo e meio ambiente.
O trabalho de Anna Freud, Spitz e Harlow foi relevantemente desenvolvido por John Bowlby que passou a observar a interação entre o bebê e sua mãe, numa perspectiva biológica. A própria concepção do sistema de apego era de um sistema inato, instintivo ou motivacional, similar a sede ou fome, responsável pela organização dos processos de memória da criança e pelo seu direcionamento na busca de proximidade e comunicação com sua mãe. Este ponto de vista claramente evolucionista, favorece as chances de sobrevivência da criança permitindo que o cérebro imaturo desta use as funções maduras de seus pais para organizar seus próprios processos vitais, como nos diz Kandel (Kandel, 1999).
"Se pudermos reorientar nossos pensamentos e emoções e reorganizar nosso comportamento, então poderemos não
só aprender a lidar com o sofrimento mais facilmente, mas sobretudo e em primeiro lugar, evitar que muito dele
surja."
Eric Kandel.
Se temos o surgimento da Psicanálise a partir do final do século 19, temos o da Neurociência um século depois. Foi a partir dos anos 1970 que as ciências que estudavam o cérebro começaram a olhar de forma mais pontual para a arquitetura e a materialidade do cérebro.
Novas questões foram ganhando corpo e espaço, entre elas a estrutura e a função do sistema nervoso, articulando-se aos modos de processamento de informações. Percebeu-se, então a emergência do cérebro como centro controlador do comportamento, das emoções, do pensamento, e mais recentemente dos afetos.
Por milhares de anos da História humana, a busca de teorias convincentes e evidências para as hipóteses sobre as funções do cérebro foi um desafio monumental para os cientistas. Enfim, começamos a avançar rumo a esse objetivo, e os cientistas começaram a entender o impacto desse órgão gelatinoso de 1.400 gramas sobre o pensamento e o comportamento humanos. Tão fascinante quanto esses primeiros vislumbres do funcionamento do cérebro são as impressionantes histórias de como pesquisadores talentosos desvelaram os segredos do misterioso sistema nervoso e suas conexões com o cérebro e com o corpo.
A década de 90 foi considerada a "década do cérebro", período em que muitos estudos oriundos de pesquisas e conseqüentes descobertas que relacionavam os conhecimentos do cérebro e suas funções, ao comportamento e aos afetos.
Os estudos associativos e comparativos aproximavam o que sabíamos sobre o Sistema Nervoso e os processos mentais. Para compor este quadro, os pesquisadores, buscando contribuir para o entendimento da atividade cerebral e da mente, mantinham o rigor científico de suas observações.
Esse viés científico, que compreende o funcionamento de cada estrutura cerebral, foi balizado - e continua sendo - por uma série de avanços determinantes, como por exemplo: o trabalho dos neurofisiologistas e neurobiologistas que, através de estudos com o uso de eletrodos, amplificadores e osciloscópio, medem a atividade elétrica do cérebro e a relação que existe com os processos mentais. Complementando estas observações, os neuroanatomistas que, utilizando técnicas de traçamento com auxílio de sofisticados microscópios, delineiam as conexões cerebrais. Os neurofarmacologistas, mapeando os circuitos bioquímicos do cérebro, conseguem produzir novas drogas para aliviar sofrimentos. Contamos também com os estudos oriundos dos biologistas moleculares que estudam o material genético dos neurônios. Com estas informações, aproximam-se da compreensão da estrutura molecular do cérebro, oferecendo recursos para o entendimento da atividade neural.
Dando seqüência ao estudo da atividade neural, os cientistas já há algum tempo, contam com o auxílio dos exames com imagem funcional, obtendo assim a relação dos componentes dos processos mentais - atenção, linguagem, cognição, entre outros - e a atividade neural.
Temos, de forma abrangente, que todos estes conhecimentos interligados que denominamos genericamente como neurociência observa a interligação das ciências com o comportamento.
Esta é a área de atuação e observação do que conhecemos por neurociência: o estudo da correlação entre eventos mentais, tais como a aprendizagem, as alterações químicas e estruturais das células nervosas. Estuda também, e principalmente, as habilidades do cérebro em processar e armazenar informações. Eis aí um dos pilares temáticos, um dos aspectos mais estudados e observados: a memória
É justificável que sejamos dependentes da memória. É ela que nos capacita a execução das tarefas básicas do cotidiano - tomar banho, escovar os dentes,- até a aquisição e fixação de conceitos e teorias complexas. A existência da memória nos proteje, uma vez que a noção de que o fogo queima está bem preservada por nossa capacidade mnêmica. São também as conexões mnêmicas que nos auxiliam na transmissão das informações, na transmissão da nossa história (seja coletiva ou pessoal). Assim sendo, é com o auxílio da memória que descrevemos o contorno de nossa identidade.
Mesmo quando nos livramos de nossos agressores, nós os levamos em nós, em nossa memória. Esse é o viés, que para nossa prática clínica, interessa. Para tal devemos relacionar o cérebro à mente, o funcionamento de um, influenciando e sendo influenciado pelo funcionamento do outro, numa relação dialética.
O registro das memórias não é somente cognitivo. Também existe a memória que lida com as emoções, com as experiências, as vivências: a memória implícita.
Os neurocientistas buscavam saber como a impressão, a informação fica gravada no cérebro. Para tal, necessário conhecer e qualificar as informações, tal como se estruturam, se agrupam e são reconhecidas em suas funções. Estruturalmente somos todos iguais, mas não somos no que se refere às impressões.
EmO erro de Descartes, Damásio procura mostrar como primeiro vem a emoção e depois o pensamento, portanto, não é "penso, logo existo", mas "existo (tenho a noção de existir) e por isso penso". A emoção e a consciência são inseparáveis, como a angústia da ansiedade. Conclui Damásio: quanto mais o self reconhece suas emoções, mais se torna apto para uma melhor adaptação ao mundo interno e externo. É essa exatamente a intenção do psicanalista para com seu paciente: levá-lo a um melhor conhecimento de seus conflitos emocionais inconscientes, a fim de poderem ser, senão resolvidos, pelo menos atenuados.
As emoções são a parte pública, visível das nossas reações. Já os sentimentos, a parte privada, as invisíveis.
Passou a ser comum ouvirmos a referência ao cérebro como sendo um verdadeiro sistema auto imune. Isso por ser capaz de antecipar fenômenos, situações perigosas que exigem reação imediata.
Ainda observando o tema memória, cabe ressaltar que um indivíduo só toma decisões se tiver um registro prévio, ou seja memória. Neste sistema a que chamamos memória, vários aspectos subjetivos estão envolvidos: a forma como registramos a informação, o que a informação representa, que sentimentos estão envolvidos.
Assim percebendo, a memória passa a ser compreendida como um subsistema do sistema de cognição incluindo a percepção, diretamente relacionado à memória. Difere de sensação, relacionada ao sistema sensorial. Sensações podem ser sentidas e talvez não percebidas. A sensação é registrada como aspecto cognitivo. Simplesmente falando em arranhar a unha no quadro negro, mesmo sem fazê-lo, já causa aflição. Já a percepção é uma construção do SNC, e é diferente para cada um. Tomemos o medo como exemplo. A percepção de medo é diferente para cada indivíduo, embora a fonte geradora seja a mesma.
Falando em percepção, somos novamente levados a pensar o início da vida relacional. Pensar no bebê que funciona como uma esponja afetiva, pois o que funciona inicialmente, no que se refere às funções cerebrais, é seu hemisfério direito. Temos, em linhas gerais, considerando as diferenças entre os hemisférios cerebrais, uma breve descrição: esquerdo, relacionado a linguagem gramatical, a lógica, a racionalidade, a escrita e fala, enquanto que o direito relacionado a linguagem emocional, a prosódia, as artes, as cores.
O primeiro hemisfério a se desenvolver, a ser mielinizado é o direito. É o mais primitivo, é o que lida com as percepções. Nos dois primeiros anos de vida é o hemisfério direito que predomina. O desenvolvimento, ou seja a mielinização do hemisfério esquerdo acontece quando da aquisição da fala.
Não é uma coincidência quando, psicanaliticamente, compreendemos os primeiros anos de vida como fundamentais. Uma vez que o bebê é inteiramente dependente da mãe, ou quem a substitua, tudo que ele recebe é compreendido, percebido, enquanto estímulo afetivo. Verdadeiramente afetam o bebê. Ter suas necessidades atendidas é basicamente o que ele mais precisa, de início. Paralelo a essa ação básica para a sobrevivência do bebê, o que se torna delineador de sua futura estrutura emocional e psíquica é a forma como sua figura de apego se disponibiliza para cuidar dele, atendendo às suas demandas de atenção, carinho e afeto. Foi observando a ausência desses componentes que Bowlby baseou suas observações e, em cima desses pilares teóricos, a prática clínica se ocupa.
Como estamos falando de uma organização cerebral, cabe lembrar que o cérebro é visto como um órgão tripartido, compreendendo o reptiliano, que é o mais primitivo, mecânico, compulsivo, obsessivo e ritualístico; é o que assegura as funções básicas imprescindíveis para a sobrevivência, a temperatura do corpo, o sono e a vigília como meio para regular os gastos energéticos e o comportamento sexual para garantir a sobrevivência da prole. Compreende também o sistema límbico que parece ser a sede principal da emoção, das memórias afetivas e dos comportamentos emocionais, lida com a comunicação áudio-vocal na tentativa de manter as relações sociais. O sistema límbico tem conexões com o neocortex, que é a terceira instância cerebral. É nele que os hemisférios são descritos, com todas as suas relações e suas funções específicas.
A essas funções cerebrais e a capacidade de formar novas conexões, chamamos plasticidade neural ou neuroplasticidade. O conceito atual neurocientífico de plasticidade cerebral, das redes ou mapas neuronais com sinapses sempre em mudança de maneira ativa em contato com aquilo que vem da realidade interna e externa, dá uma base orgânica estrutural para a teoria e prática psicanalíticas atuais.
É intenção explícita do trabalho psicanalítico a promoção da plasticidade, uma vez que lida com todas as conexões do sistema nervoso, produzindo efeitos neurobiológicos. As intervenções, as interpretações podem promover alterações nos pensamentos, sentimentos e comportamentos dos pacientes.
Eric Kandelfala sobre a experiência da aprendizagem modificando as conexões neurais, o que pode ser comprovado em exames específicos de imagens. As estimulações ambientais podendo chegar a modificar a expressão genética, levando à síntese de novas proteínas e, conseqüentemente novas sinapses.
Todos esses fenômenos são advindos da neuroplasticidade, da chance de reconstrução. Isso explica a importância da redundância na configuração de novas conexões neurais. É a redundância que permite a alteração, com o tempo. A redundância é necessária para a reorganização. Assim é na psiocanálise.
Percebemos, em crianças pequenas, que seus movimentos e suas atividades físicas que são em princípio difusas, sem coordenação ou intenção, ganham com o tempo maior direção, especificação. São mais especializadas, porque mais necessárias. O oposto acontece com os idosos que perdem a especialização, principalmente dos movimentos. Não é raro vermos um idoso que sempre foi destro, passar a ser ambidestro. Isso se dá pela ausência da necessidade, que gera pouco estímulo e faz com que dilua-se a especialização do movimento.
A plasticidade neural é a capacidade de organização e de mudanças no sistema nervoso. Consideramos o período crítico o limite de tempo específico, cedo na vida, quando a experiência pode influenciar a organização do sistema nervoso central. Assim, o bebê tem muita plasticidade e por isso é bom ter muitos estímulos para colaborar na promoção de experiências e, conseqüentes novas conexões nervosas. A plasticidade não é uma característica finita, mas diminui muito na velhice por isso o idoso deve estar sempre em contato com novas informações, postas em atividade. Assim, a capacidade contínua para aprender coisas novas e lembrá-las pode ser mantida. O ser humano não para de aprender.
Já que falamos em novas conexões neurais para dar uma idéia do que vem a ser a neuroplasticidade, somos levados a pensar na neurogênese, o que talvez fosse considerado heresia no século passado, onde predominava a teoria do cérebro fixo, cuja crença central é a de que os homens nascem com um conjunto completo de neurônios. Esta teoria defende também que as células cerebrais, diferentemente de qualquer outra célula em nosso corpo, não se dividem. O defensor desta teoria foi Pasko Rakic, da Universidade de Yale. Como nos relata Lehrer, no início da década de 1980, Rakic percebeu que a idéia de que os neurônios não se dividem nunca fora realmente testada em primatas. A proposição era totalmente teórica.
Rakic começou a investigar estudando 12 macacos rhesus. Em 1985 escreve no ensaio Limits of Neurogenesis in Primates que todos os neurônios dos macacos rhesus são gerados durante a vida pré-natal e no início da vida após o nascimento. Suas pesquisas nunca foram levadas a diante por outros pesquisadores.
A genialidade do método científico consiste na não aceitação de soluções permanentes. O ceticismo é seu solvente, pois toda teoria é imperfeita. Os fatos científicos são significativos, precisamente porque são efêmeros, porque uma nova observação, uma observação mais honesta, sempre poderá alterá-los. Foi o que aconteceu com a teoria do cérebro fixo de Rakic. Usando o verbo de Popper, era falsificada. (Lehrer)
Em 1989, Elizabeth Gould, uma jovem neurocientista, pós doutoranda, trabalhando na Universidade de Rockfeller, em Nova Iorque, investigava o efeito dos hormônios do estress sobre o cérebro dos ratos. Estresse crônico é devastador para os neurônios e a pesquisa de Gould concentrou-se na morte das células no hipocampo. Porém, enquanto documentava a degeneração do cérebro, Gould se deparou com algo completamente milagroso: o cérebro também se curava. Certamente Gould duvidou de suas observações, pois a crença era, até então, que os neurônios não se dividiam.
Lendo artigos e pesquisas de pesquisadores anteriores a ela, descobriu que seu erro não era um erro, mas um fato ignorado.
Gould descobriu os trabalhos de Fernando Nottebohon que, em seus estudos sobre o cérebro dos pássaros, mostrou que a neurogênese era necessária para o canto deles. Para cantar melodias complexas, os machos precisavam de novas células cerebrais. Na verdade, até um por cento dos neurônios do centro de canto dos pássaros era renovado todos os dias.
Ainda assim, a comprovação da neurogênese foi sistematicamente excluída do mundo da ciência "normal".
Gould abandonou seu projeto anterior e começou a investigar o nascimento dos neurônios. Trabalhando em Princeton, por oito anos, escreveu uma série de artigos memoráveis, onde começava a documentar a nerugênese em primatas, em franca oposição à Rakic. Ela demonstrou que sagüis e macacos criavam novos neurônios durante a vida. O cérebro está, na realidade, em constante reviravolta celular.
Em 1998, até mesmo Rakic admitiu a que a neurogênese era real. Os compêndios foram reescritos: o cérebro renasce constantemente.
Gould mostrou que a quantidade de neurogênese é, em si, regulada pelo ambiente e não apenas por nossos genes. Uma vez que nunca terminamos nossas mudanças, estar vivo é recomeçar constantemente. É na constante agitação de nossas células, na plasticidade incontrolável do cérebro, que encontramos nossa liberdade.
Como nos diz Lehrer, o cérebro está constantemente se adaptando às condições particulares da vida. Por isso, cegos conseguem usar o córtex visual para ler em braile e surdos conseguem processar a linguagem de sinais no córtex auditivo. Essas observações demonstram convincentemente que as experiências moldam o cérebro: a mente é definida por sua maleabilidade.
Recentemente pesquisadores comprovaram que as áreas cerebrais envolvidas na produção de projeções e planejamentos são as mesmas usadas na manutenção das recordações.
Como nos diz John Bowlby "Acumulam-se evidências de que seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais capazes de desenvolver seu talentos quando estão seguros de que, por trás deles, existem uma ou mais pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades"
Estudos oriundos das observações de Bowlby apontam para a influência de relações com pessoas significativas e próximas como apoio para superar adversidades.
Parece-nos ser possível entender essas afirmações de Bowlby como próximas de um duplo conceito da neurociência: o do neurônio espelho, conceituado em 1997, quando um grupo de italianos chefiado por Risolati, estudando o comportamento de macacos, do ponto de vista fisiológico, observaram este mecanismo que imita o comportamento e chamou-o de o "neurônio espelho localizados na área frontal, que responde sempre que percebemos alguns determinados movimentos movimentos (bocejar, por exemplo). Essa descoberta explica a parte não consciente da memória. Sempre que alguém faz um gesto na sua frente, um subsistema "absorve", grava aquele movimento. Observações foram feitas no sentido de confirmar a importância dos neurônios espelho no processo de aprendizagem, uma vez que sabemos que a aprendizagem se dá por imitação.
O outro conceito é o de resiliência, que no olhar da física é a capacidade dos materiais de resistirem ao choque e retornar ao estado natural de excelência. Nas ciências humanas falamos da capacidade do indivíduo de sobreviver a um trauma, garantindo a integridade nos momentos mais críticos. Mas esta habilidade de superar adversidades não significa que o indivíduo saia ileso dela.
Não se é resiliente sozinho, embora a resiliência seja íntima e pessoal. Um dos fatores de maior importância é o apoio e o acolhimento, feito em geral por um outro individuo, e essencial para o salto qualitativo que se dá. Alguns autores nomearam essas pessoas: Flash chamou-o mentor de resiliência; Cyrulnik chamou-o tutor de resiliência; muito antes Bolwby chamou-o figura de apego.
Alguns estudiosos concluíram que a capacidade para a resiliência é um fenômeno comum e presente no desenvolvimento de qualquer ser humano.
O fator fundamental é a qualidade do apoio que vai receber, a disponibilidade e continuidade do auxílio necessário para a reorganização do sistema que tiver sido avariado, magoado, alterado. Estudos apontam para a influência de relações com pessoas significativas e próximas como apoio para superar adversidades.
Como nos diz Cyrulnik " gerar uma criança não é suficiente. Temos que pô-la no mundo".
Se passarmos a olhar para o conceito de resiliência numa perspectiva neurocientífica, falaremos em mecanismos de resiliência, entendendo que o processo tem início, num nível primário, no hipotálamo, ativado pelo que é sentido como ameaça .Esta ativação faz a conexão entre sistema nervoso e sistema endócrino, disparando um sinal de estressena forma de um hormônio, isto é, liberando cortisol. O hipotálamo, ligado ao estado de alerta e buscando controlar a homeostase, libera tanto cortisol nas situações de alerta, quanto ocitocina, que seria como o revés do cortisol. Popularmente a ocitocina é conhecida como hormônio do amor, uma vez que estimula e está presente no aleitamento materno. Este hormônio é uma resposta à interação positiva, à empatia.
A saída dos campos de concentração não é a liberdade. Quando a morte se afasta, a vida não volta. É preciso procurá-la, reaprender a andar, a respirar, a viver em sociedade. A esse aprendizado, conquistado de forma mais plena através de relações confiáveis e sustentadoras, chamamos resiliência.
Conceito intimamente conectado ao de flexibilidade, ou ainda, de plasticidade do ser humano. A suspensão dos maus tratos não é o fim dos problemas.
O homem possui uma capacidade de se distanciar, o que permite prever as conseqüências de seu atos e optar entre as ações possíveis. Até certo grau, o homem pode atuar de encontro a seus impulsos.
Graças a essa capacidade podemos viver a base da liberdade especificamente humana.
Psicanalista e neuropsicoterapeuta, mestre em Educação pela UFF em 1994, vice-diretora da Escola Brasileira de Psicanálise e Etologia e orientadora de formação psicanalítica, onde trabalha com Ferenczi, Winnicott, Bowlby, Lorenz, Bracinha, Eibl-Eibesfeldt, entre outros autores. Possui cursos de extensão em neurociência com foco nos aspectos cognitivos e vários trabalhos publicados.
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